Desde que assumi a presidência da CONAE, tenho recebido uma quantidade crescente de mensagens. São denúncias, reclamações, pedidos, angústias, desabafos e lamentos. Alguns chegam bem fundamentados; outros, ainda vagos, desconexos ou difíceis de transformar em uma ação concreta.
Quase todos, porém, têm algo em comum: tratam de problemas que não pertencem apenas a quem escreve. São problemas coletivos.
Ainda assim, chegam até mim individualmente, acompanhados da expectativa de que eu, também individualmente, encontre uma solução.
Acho isso curioso.
Às vezes me pergunto: será que somente eu estou enxergando essa contradição? Será que sou eu o louco?
Assumi a CONAE repetindo algo em que realmente acreditava: ninguém faz nada sozinho. Muito menos dentro de uma empresa do tamanho, da complexidade e da estrutura do Serviço Geológico do Brasil.
Depois destes primeiros meses de gestão, passei a compreender melhor o que é a CONAE — não apenas aquilo que está escrito em seu estatuto, mas aquilo que ela se tornou na prática.
Uma coordenação esvaziada, formada por associações também esvaziadas.
Não digo isso para acusar ninguém. Digo porque precisamos reconhecer nossa realidade antes de conseguir transformá-la.
As pessoas procuram a CONAE quando a situação aperta. Procuram quando uma decisão as prejudica, quando um direito parece ameaçado, quando uma injustiça se torna insuportável ou quando uma porta deixa de se abrir. Entregam sua demanda e, muitas vezes, voltam silenciosamente para suas rotinas, esperando que alguém percorra sozinho o restante do caminho.
Assim, pouco a pouco, transformo-me numa espécie de caixeiro-viajante.
Carrego uma mala cada vez mais pesada, abarrotada de reclamações, denúncias, pedidos e esperanças. Caminho com ela de porta em porta. Bato numa, depois em outra. Encaminho mensagens, converso com gestores, dirigentes sindicais, procuro interlocutores e produzo ofícios.
Foram vários ofícios nesses meses.
Eles estão todos lá, registrados no sistema. Sem resposta.
As portas não se abrem.
Talvez porque, do outro lado, não se enxergue uma coletividade batendo. Enxerga-se apenas uma pessoa, uma assinatura, uma unidade no SEI.
Esse é, afinal, o único “superpoder” de que disponho: uma unidade administrativa capaz de disparar documentos oficiais. Mas nenhum ofício, por mais bem escrito que seja, possui vida própria. Sem participação, sem mobilização e sem disposição coletiva, ele se torna apenas mais um arquivo repousando no sistema.
O epitáfio de uma luta que morreu antes de começar.
A CONAE não pode ser compreendida como um balcão onde se entrega um problema e se retira uma solução. Também não pode ser um serviço de despachante de insatisfações, no qual uma pessoa recebe as demandas de centenas e tenta negociá-las sozinha.
A CONAE não sou eu.
Não é o presidente, não é a diretoria e não é uma sigla impressa no cabeçalho de um ofício.
A CONAE deveria ser a articulação das associações. E as associações deveriam ser a expressão organizada dos empregados.
Quando essa base não participa, toda a estrutura se torna uma casca vazia.
As demandas precisam ser nutridas de baixo para cima. Precisam ser discutidas nos locais de trabalho, assumidas pelas associações, transformadas em posicionamentos coletivos e sustentadas por aqueles que desejam mudança.
Não basta dizer: “A CONAE precisa fazer alguma coisa.”
É preciso perguntar: “O que nós faremos, através da CONAE?”
Pode parecer apenas uma diferença de palavras, mas é a diferença entre assistir e participar. Entre delegar e construir. Entre lamentar diante de uma porta fechada e empurrá-la coletivamente.
Quantas dessas portas não se abririam se, em vez de uma assinatura, houvesse dezenas de associações mobilizadas?
Quanto mais leve seria essa mala se cada um carregasse uma pequena parte?
Quantas propostas conseguiríamos construir se as pessoas que apresentam os problemas também ajudassem a formular os caminhos?
Não precisamos de heróis. Heróis, além de não existirem, costumam servir como desculpa para que todos os demais permaneçam parados, esperando que alguém resolva aquilo que só pode ser resolvido em conjunto.
Precisamos de colegas dispostos a participar.
Precisamos reconstruir as associações locais, ocupar os espaços de deliberação, responder às consultas, acompanhar os processos e sustentar publicamente as reivindicações que, em particular, todos afirmam considerar importantes.
Eu continuarei carregando a mala e batendo às portas. Esse é o compromisso que assumi.
Mas preciso dizer com honestidade: sozinho, não conseguirei derrubá-las.
E talvez a principal tarefa desta gestão não seja produzir mais um ofício, conquistar mais uma reunião ou encaminhar mais uma reclamação.
Talvez seja fazer com que todos compreendam uma verdade simples:
a CONAE somente terá a força que nós estivermos dispostos a colocar dentro dela.


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